16 de ago. de 2026

Dias Perfeitos

 

Zapear, neologismo criado a partir do verbo inglês “to zap”, que na tradução literal significa dar um tiro ou apagar, atualmente significa trocar de canal constantemente com o controle remoto ou navegar por diferentes conteúdos digitais, tais como redes sociais ou aplicativos de transmissão de filmes, séries, documentários, etc.

Muitas vezes nós zapeamos muito e assistimos poucos conteúdos que nos exigem atenção e foco. Para algumas pessoas é mais prazeroso zapear sem tempo definido do que parar e concentrar-se assistindo um filme ou um episódio de alguma série,  o que levaria pelo menos trinta minutos.

Existem plataformas digitais de conteúdo hoje em dia que foram criadas após a percepção dessa tendência. Estas plataformas exibem vídeos curtos criados por pessoas que se intitulam “criadores de conteúdo” e os postam em busca do engajamento do público. O fato de ser curto e com pouca exigência de refinamento intelectual para compreensão ou associação com outras situações complexas, estimula o rolar da tela para assistir outro e mais outro e outro, fazendo com que o espectador passivo permaneça nessa ação por horas sem nem perceber que não foi ele quem fez as escolhas finais, mas um algoritmo, baseado em alguma emoção que o fez acionar o botão curtir em determinados vídeos.

Eu sempre gostei de ler, costumava frequentar bibliotecas e livrarias nas eras pré internet e por isso sei que é possível, quando gostamos de algo, passar horas procurando por aquilo que nos agrada. No caso dos livros, além do cheiro, o tipo de capa, a fonte escolhida,  o resumo na contracapa são atrativos tanto para o olhar quanto para aguçar a curiosidade de uma leitura.

Entretanto, somente o título de um livro ou as ilustrações contidas nele não bastam para sentirmos alguma emoção mais impactante, é necessário compreender, fazer conexões, saber interpretar para que ele realmente nos toque, nos modifique, nos apaixone ou na linguagem atual “nos atravesse”. A escrita é uma forma mais complexa e exige muito mais de nós para que realmente nos engaje.

Hoje  em dia, eu também “zapeio” plataformas digitais, sejam elas de vídeos curtos, música ou filmes em busca de conteúdos interessantes ou simplesmente para passar o tempo e me distrair.

Numa destas incursões encontrei um filme, cujo título era “Dias Perfeitos”. Era um final de domingo e eu fugia ao programa que já faz parte cultural do final de domingo da família brasileira. Aquele que é o show da vida. Estava cansada e com vontade de assistir qualquer coisa que fosse leve, alegre ou que me fizesse esquecer um pouco do show da vida como ela é.

O  filme citado trata do dia a dia de um zelador de banheiros públicos na cidade de Tóquio. O que pode ter de interessante no dia a dia de um zelador de banheiros públicos? Por que esse título: “Dias Perfeitos”?

O filme tem duração de 123 minutos, um pouco mais de duas horas. Mas eu quase não senti o tempo passar.

O protagonista Hirayama fala muito pouco no filme, mostra contentamento com sua rotina de trabalho e aproveita momentos do dia para realizar atividades relacionadas com a arte, tais como a literatura, a música, o cultivo de plantas e a fotografia analógica da natureza.

Um filme como Dias Perfeitos é o filme perfeito para pensarmos sobre o quanto o nosso dia a dia pode ser precioso através da simples execução de atividades que consideramos prazerosas ou das nossas obrigações e tarefas, sejam elas simples ou complexas, automáticas ou estafantes, repetitivas ou inusitadas, valorizadas ou despercebidas pelos outros.

O melhor filme que eu poderia ter escolhido para encerrar o domingo no meu “zapear” descompromissado.

 Durante aquela semana, embalada pela trilha sonora do filme, ouvindo a  playlist do YouTube sinto que tive mais consciência da minha rotina, dos meus afazeres e passatempos, bem como das pessoas que me rodeiam. Em vários momentos me peguei pensando sobre algumas cenas do filme e refletindo sobre a grandeza de ter acesso, mesmo que através da arte cinematográfica e da música, a outros mundos. E como é importante perceber a riqueza da arte e o quanto ela nos favorece.



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