Zapear, neologismo criado a partir do verbo inglês “to zap”,
que na tradução literal significa dar um tiro ou apagar, atualmente significa
trocar de canal constantemente com o controle remoto ou navegar por diferentes
conteúdos digitais, tais como redes sociais ou aplicativos de transmissão de
filmes, séries, documentários, etc.
Muitas vezes nós zapeamos muito e assistimos poucos
conteúdos que nos exigem atenção e foco. Para algumas pessoas é mais prazeroso zapear
sem tempo definido do que parar e concentrar-se assistindo um filme ou um episódio
de alguma série, o que levaria pelo
menos trinta minutos.
Existem plataformas digitais de conteúdo hoje em dia que
foram criadas após a percepção dessa tendência. Estas plataformas exibem vídeos
curtos criados por pessoas que se intitulam “criadores de conteúdo” e os postam
em busca do engajamento do público. O fato de ser curto e com pouca exigência
de refinamento intelectual para compreensão ou associação com outras situações
complexas, estimula o rolar da tela para assistir outro e mais outro e outro,
fazendo com que o espectador passivo permaneça nessa ação por horas sem nem
perceber que não foi ele quem fez as escolhas finais, mas um algoritmo, baseado
em alguma emoção que o fez acionar o botão curtir em determinados vídeos.
Eu sempre gostei de ler, costumava frequentar bibliotecas e
livrarias nas eras pré internet e por isso sei que é possível, quando gostamos
de algo, passar horas procurando por aquilo que nos agrada. No caso dos livros,
além do cheiro, o tipo de capa, a fonte escolhida, o resumo na contracapa são atrativos tanto
para o olhar quanto para aguçar a curiosidade de uma leitura.
Entretanto, somente o título de um livro ou as ilustrações contidas
nele não bastam para sentirmos alguma emoção mais impactante, é necessário
compreender, fazer conexões, saber interpretar para que ele realmente nos toque,
nos modifique, nos apaixone ou na linguagem atual “nos atravesse”. A escrita é uma
forma mais complexa e exige muito mais de nós para que realmente nos engaje.
Hoje em dia, eu
também “zapeio” plataformas digitais, sejam elas de vídeos curtos, música ou
filmes em busca de conteúdos interessantes ou simplesmente para passar o tempo
e me distrair.
Numa destas incursões encontrei um filme, cujo título era
“Dias Perfeitos”. Era um final de domingo e eu fugia ao programa que já faz
parte cultural do final de domingo da família brasileira. Aquele que é o show
da vida. Estava cansada e com vontade de assistir qualquer coisa que fosse
leve, alegre ou que me fizesse esquecer um pouco do show da vida como ela é.
O filme citado trata
do dia a dia de um zelador de banheiros públicos na cidade de Tóquio. O que
pode ter de interessante no dia a dia de um zelador de banheiros públicos? Por
que esse título: “Dias Perfeitos”?
O filme tem duração de 123 minutos, um pouco mais de duas
horas. Mas eu quase não senti o tempo passar.
O protagonista Hirayama fala muito pouco no filme, mostra
contentamento com sua rotina de trabalho e aproveita momentos do dia para
realizar atividades relacionadas com a arte, tais como a literatura, a música,
o cultivo de plantas e a fotografia analógica da natureza.
Um filme como Dias Perfeitos é o filme perfeito para
pensarmos sobre o quanto o nosso dia a dia pode ser precioso através da simples
execução de atividades que consideramos prazerosas ou das nossas obrigações e
tarefas, sejam elas simples ou complexas, automáticas ou estafantes,
repetitivas ou inusitadas, valorizadas ou despercebidas pelos outros.
O melhor filme que eu poderia ter escolhido para encerrar o
domingo no meu “zapear” descompromissado.
Durante aquela
semana, embalada pela trilha sonora do filme, ouvindo a playlist do YouTube sinto que tive mais consciência da minha rotina, dos meus afazeres e
passatempos, bem como das pessoas que me rodeiam. Em vários momentos me peguei
pensando sobre algumas cenas do filme e refletindo sobre a grandeza de ter
acesso, mesmo que através da arte cinematográfica e da música, a outros mundos.
E como é importante perceber a riqueza da arte e o quanto ela nos favorece.
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