16 de ago. de 2026

Dias Perfeitos

 

Zapear, neologismo criado a partir do verbo inglês “to zap”, que na tradução literal significa dar um tiro ou apagar, atualmente significa trocar de canal constantemente com o controle remoto ou navegar por diferentes conteúdos digitais, tais como redes sociais ou aplicativos de transmissão de filmes, séries, documentários, etc.

Muitas vezes nós zapeamos muito e assistimos poucos conteúdos que nos exigem atenção e foco. Para algumas pessoas é mais prazeroso zapear sem tempo definido do que parar e concentrar-se assistindo um filme ou um episódio de alguma série,  o que levaria pelo menos trinta minutos.

Existem plataformas digitais de conteúdo hoje em dia que foram criadas após a percepção dessa tendência. Estas plataformas exibem vídeos curtos criados por pessoas que se intitulam “criadores de conteúdo” e os postam em busca do engajamento do público. O fato de ser curto e com pouca exigência de refinamento intelectual para compreensão ou associação com outras situações complexas, estimula o rolar da tela para assistir outro e mais outro e outro, fazendo com que o espectador passivo permaneça nessa ação por horas sem nem perceber que não foi ele quem fez as escolhas finais, mas um algoritmo, baseado em alguma emoção que o fez acionar o botão curtir em determinados vídeos.

Eu sempre gostei de ler, costumava frequentar bibliotecas e livrarias nas eras pré internet e por isso sei que é possível, quando gostamos de algo, passar horas procurando por aquilo que nos agrada. No caso dos livros, além do cheiro, o tipo de capa, a fonte escolhida,  o resumo na contracapa são atrativos tanto para o olhar quanto para aguçar a curiosidade de uma leitura.

Entretanto, somente o título de um livro ou as ilustrações contidas nele não bastam para sentirmos alguma emoção mais impactante, é necessário compreender, fazer conexões, saber interpretar para que ele realmente nos toque, nos modifique, nos apaixone ou na linguagem atual “nos atravesse”. A escrita é uma forma mais complexa e exige muito mais de nós para que realmente nos engaje.

Hoje  em dia, eu também “zapeio” plataformas digitais, sejam elas de vídeos curtos, música ou filmes em busca de conteúdos interessantes ou simplesmente para passar o tempo e me distrair.

Numa destas incursões encontrei um filme, cujo título era “Dias Perfeitos”. Era um final de domingo e eu fugia ao programa que já faz parte cultural do final de domingo da família brasileira. Aquele que é o show da vida. Estava cansada e com vontade de assistir qualquer coisa que fosse leve, alegre ou que me fizesse esquecer um pouco do show da vida como ela é.

O  filme citado trata do dia a dia de um zelador de banheiros públicos na cidade de Tóquio. O que pode ter de interessante no dia a dia de um zelador de banheiros públicos? Por que esse título: “Dias Perfeitos”?

O filme tem duração de 123 minutos, um pouco mais de duas horas. Mas eu quase não senti o tempo passar.

O protagonista Hirayama fala muito pouco no filme, mostra contentamento com sua rotina de trabalho e aproveita momentos do dia para realizar atividades relacionadas com a arte, tais como a literatura, a música, o cultivo de plantas e a fotografia analógica da natureza.

Um filme como Dias Perfeitos é o filme perfeito para pensarmos sobre o quanto o nosso dia a dia pode ser precioso através da simples execução de atividades que consideramos prazerosas ou das nossas obrigações e tarefas, sejam elas simples ou complexas, automáticas ou estafantes, repetitivas ou inusitadas, valorizadas ou despercebidas pelos outros.

O melhor filme que eu poderia ter escolhido para encerrar o domingo no meu “zapear” descompromissado.

 Durante aquela semana, embalada pela trilha sonora do filme, ouvindo a  playlist do YouTube sinto que tive mais consciência da minha rotina, dos meus afazeres e passatempos, bem como das pessoas que me rodeiam. Em vários momentos me peguei pensando sobre algumas cenas do filme e refletindo sobre a grandeza de ter acesso, mesmo que através da arte cinematográfica e da música, a outros mundos. E como é importante perceber a riqueza da arte e o quanto ela nos favorece.



26 de ago. de 2024

Inspiração

Este blog foi criado a partir de uma provocação acadêmica para treinar a escrita a partir daquilo que lemos, assistimos, ouvimos e sentimos.

 A escrita não é uma atividade natural, ela precisa ser aprendida e exercitada para evoluir. Não só a escrita, quase tudo que fazemos, quanto mais repetimos, melhor ficamos. A vida é um eterno assistir, copiar, repetir, memorizar, aprimorar, evoluir. Se paramos, morremos.
 
Todos dizem que bons leitores podem ser também bons escritores e que para escrever bem tem-se que ter por hábito a leitura, se não for essencial será meio para desenvolver um boa escrita. Ler e escrever são ações relacionadas.

Pois estava lendo muita poesia na época que iniciei essa atividade de escrita da era digital e o poema que me inspirou a colocar este título foi Ruínas da poetisa Florbela Espanca. 
A inspiração surgiu dentro do contexto daquele momento (14 anos atrás) porque estava um tanto frustrada no contexto profissional porque apesar de estudar muito e trabalhar bastante não via maneiras de crescer dentro da profissão.
Estava com aquele sentimento de ruína, achando meu salário baixo e com vários questionamentos sobre os meus antigos sonhos e questionando minhas tomadas de decisão que me levaram a ser quem era e estar onde estava. 
Então a hera que cresce sobre a ruína me pareceu o nome adequado para começar qualquer redação a partir das reflexões que viesse a fazer naquele contexto.

O tempo passou, lá se vão mais dez anos, entretanto a  cada década observo que alguns castelos (sonhos) tombaram, mas o importante que sempre as heras floresceram sobre as ruínas beijando as pedras e florindo!

A retomada do exercício de escrita, surge agora como uma provocação interna e sigo um novo momento construindo, no dia-a-dia, novos castelos.




9 de mar. de 2019

O gato bebe leite, o rato come queijo e eu...eu sou...

O longa O Palhaço tem como protagonista Benjamim, atuação de Selton Mello.

O protagonista Benjamim é o palhaço Pangaré, que vive um momento de dúvida sobre a sua vida e seu trabalho no Circo.

O grupo do Circo Esperança viaja por lugares remotos do interior do Brasil e a dupla de palhaços  Puro Sangue (Paulo José) e Pangaré (Selton) faz graça para o público visitante do circo. Paradoxalmente, longe do picadeiro Benjamim se mostra muito chateado, sem graça e angustiado. 

Em uma das cenas, o palhaço Puro Sangue encontra um homem que lhe conta sua história de falência, ele conta que  ao seguir os conselhos do pai, vendeu sua fábrica de tecidos que ia bem e investiu em uma plantação de arroz. Decepcionado com o negócio que parecia que ia dar muito dinheiro, mas  não deu certo ele diz a Puro Sangue:

- E o que nós sabíamos de plantação de arroz? O homem deve fazer o que sabe. O gato bebe leite, o rato come queijo e o homem faz o que sabe.

Puro Sangue, ao sentir que Pangaré, seu filho está angustiado e tem dúvidas sobre sua profissão de palhaço, aconselha o filho a seguir seus sonhos, dizendo a ele:" O gato bebe leite, o rato come queijo e eu...eu sou palhaço...".

Pangaré, então, deixa o circo e vai atrás de seus singelos sonhos que são: encontrar uma moça, comprar um ventilador, fazer uma carteira de identidade. Em sua jornada, tentando realizar seus mais modestos desejos,  descobre quem realmente é e o que sabe  fazer e onde se sente bem e feliz!

Esse filme nos ajuda a refletir sobre as nossas escolhas e ao que nos impusemos ao longo da nossa vida como limitações. São tantos os muros que construímos e que nos impedem de seguir nossos sonhos. 

Você já sentiu essa desesperança ao pensar nos rumos que suas escolhas profissionais deram a sua vida? É difícil encontrar alguém que nunca fez essa reflexão.

Atualmente, com o avanço rápido da tecnologia, escolher uma profissão se torna ainda mais difícil. Como saber o que ocorrerá daqui a 10 anos, se a escolha que fiz foi a mais acertada?

A resposta é que não temos como saber. Mas uma coisa é certa, o conhecimento ninguém pode nos tirar. O que aprendemos bem e fizermos  com sabedoria e dedicação poderá nos salvar em qualquer momento de nossas vidas. Algumas vezes precisamos desviar da rota para entender que a trilha anterior era mesmo a melhor para nossas vidas. Em todos os caminhos, o importante é colocar nossa alma e razão ao caminhar. O descolamento da alma e da razão pode tornar a jornada mais difícil.

Entender quem somos é o passo mais importante para chegarmos onde queremos.



 Como diz a música ao final do filme:  Só se encontra a felicidade quando se entrega o coração!"


 








Quem Somos Nós? Para um exercício reflexivo...


“No começo só havia o vazio transbordando com infinitas possibilidades das quais você é uma...”
           
O documentário “Quem Somos Nós?, quando assistimos a primeira vez, traz um estranhamento àquela ideia do filme de que nós somos inteiramente responsáveis pelas situações (nem sempre boas) que acontecem em nossas vidas e só nós podemos mudá-las (para melhor). Ou seja nós somos “criadores”, por isso o poder da mudança está em nossas mãos. Isso em todos os aspectos de nossas vidas.  

Mas a reflexão de que somos nós os responsáveis pela mudança, pela transformação e também pela não mudança e pela não transformação angustia, quando vivenciamos situações que consideramos inadequadas, distantes do que consideramos ideal.

Tendemos a pensar que quando algo em nossa vida  está ruim, que isso foi causado por alguém/algo e que independe de nossa vontade. Visualizar o problema em uma perspectiva de que temos sim o  poder (de provocar a mudança) na maior parte das vezes, é muito complexo, quase impossível. E como fazer isso?

Para ter o poder de mudança precisaríamos aprender a manter nossa mente atenta, pois existem centenas de suposições que acreditamos verdadeiras, mas que podem ou não ser verdadeiras. Precisamos, segundo a ideia do documentário, tentar olhar quem fomos, em quem nos transformamos, em como chegamos aqui. Ou ainda, se estamos mesmo aqui agora. Mais complexo ainda. Seria tudo um truque de nosso cérebro?

É tudo ilusão? O que é realidade e o que é sonho, imaginação? Somos mesmo os únicos responsáveis pelo que acontece conosco? 

A solução para nossos problemas seria estar atentos às coisas certas, ao que nos cerca e, a partir daí,  teremos poder sobre nossos desejos, sobre nossos pensamentos.
             
Para isso é necessário ter desprendimento para conseguir enxergar as possibilidades, para manter um pensamento positivo. 

Ter pensamento positivo é difícil, geralmente nos deixamos levar pelo pensamento da maioria, apregoamos e vivemos o senso comum, reproduzimos pensamentos, falas, ações dia após dia, ano após ano, século após século...

Somos uma entre tantas possibilidades... 

Já tentamos nos ver dos olhos de outra pessoa que nos tenhamos tornado. Será que conseguimos nos ver através dos olhos de um observador alternativo?  Esse parece ser um exercício!  Afinal tudo é possível. Afinal tudo é possível?

“Como podemos continuar a ver o mundo como real se nosso âmago que está determinado a ser real é intangível?”


Segunda, Terceira, Quarta Chance



Perguntar reflexivamente sobre nossas escolhas, sobre o que abdicamos e  sobre os  rumos que tomamos pode nos auxiliar  a entender porquê estamos onde estamos.

Estar  aberta a novos aprendizados não é cômodo.  Quem se  sente bem emocionalmente em situações instáveis, imprevisíveis? 

Particularmente, eu gosto se sentir meu  pé no chão, me conforta o fazer bem feito, ver resultados rápidos e precisos e saber o que vai acontecer se fizer isso ou aquilo. Mas, pensando sobre isso, considero que o conforto  é muito difícil de encontrar, pois  estando vivos,  haverá sempre o  imprevisível nos aguardando no próximo minuto.  Ora, bem sabemos que, se vivemos, o imprevisível nos espreita.

Muitos anos trabalhei em escolas e  todo dia aconteciam situações inusitadas, não previstas. Eram tantas coisas que aconteciam, com tanta diversidade, que não era possível falar em rotina, claro que saber disso  não me liberava de todo dia fazer meu plano de aula, ter meu roteiro e de preparar também um plano B, caso o A não desse certo. Com o tempo toda professora já sabe, que tem que ter um plano B, atividades extras e jogo de cintura para lidar com o imprevisto. o irônico é que chegava na sala e  todo dia a primeira coisa era escrever no quadro para minhas crianças a "rotina do dia"! A gente sempre tentava.

É muito difícil um dia ser igual ao outro apesar da constância e da forma como as escolas são organizadas:  a maioria com horários, turmas, grupos definidos de professores e alunos, espaços e tempos limitados e fechados. 
Entretanto esta organização não torna a atividade na escola estática, parada, rotineira. Aprendi ao longo do tempo que, além de um bom planejamento precisamos estar preparados  para acolher o imprevisto  de um espaço cheio de diferentes e diferenças. 

Em meus anos de prática, atuando como professora em escola pública e localizada na periferia aprendi que auto-conhecimento, disciplina nos estudos e paciência  são os ingredientes principais que ajudam a superar as dificuldades encontradas (que são muitas, principalmente as relacionadas à convivência):
1º) É preciso exercitar algumas características/sentimentos em relação aqueles que compartilham o  espaço escolar conosco, tais  como,  solidariedade, tolerância e cordialidade no dia-a-dia. 
2º) Por maior que seja a adversidade encontrada é preciso sempre manter o bom humor, pois não temos, quando erramos, como voltar atrás e fazer diferente. É melhor não  nos descontrolarmos e não nos distrairmos envolvendo-nos no que não é importante para o desenvolvimento do(s) nosso(s) propósito(s). 
3º) O mais importante é nos mantermos atentos e dispostos ao diálogo. E para isso o sorriso ajuda muito, muito mais que a "cara feia"!

Mas porquê falar do inusitado e de mudança de roteiro? Mudança de plano?  Foi um filme que assisti. O nome é  A Outra Terra, além de pensar sobre mudanças de rumos, provocou-me também um questionamento sobre o tempo, o tempo que temos, o que fazemos do nosso tempo e o tempo que perdemos quando achamos que não temos mais tempo.







30 de ago. de 2011

Janela da Alma

Em nossa sociedade, costumamos viver a partir de uma realidade que criamos, principalmente, a partir daquilo que vemos. O documentário “Janelas da Alma”  nos mostra pessoas famosas e muito especiais que são capazes de administrar sua “deficiência” com tamanha força que ela passa a ser até essencial para o desenvolvimento daquilo a que elas se propõem. Ao contrário do que nós, possuidores de uma visão perfeita vivenciamos, eles criam uma outra realidade, não só  a partir da visão, mas através de outros sentidos que muitas vezes não somos capazes de perceber.

Algumas declarações do filme emocionam. Destaco as que mais me tocaram que são:
1)  a da menina que disse não enxergar sem os óculos, porém, ela não o usa por vergonha;
2)  a da produtora de cinema que contou sobre uma cirurgia para corrigir seu estrabismo, mas que ninguém notou
3) a de Win Wenders que disse usar os óculos para ver o mundo enquadrado, pois a amplidão não lhe faz bem. Ele prefere a moldura na visão: “...without glasses I see too much...” (sem óculos eu vejo demais)  foi a expressão que ele usou.

Considero  incríveis esses três depoimentos e  será que eles não nos ajudam muito a  refletir sobre nosso cotidiano? O quanto a vergonha não nos impossibilita e aprisiona, o quanto nos preocupamos com os outros que nem nos notam, pois estão mais preocupados consigo mesmos, o quanto vemos o mundo dentro de uma moldura e não nos sentimos desconfortáveis com a amplidão.

Outro personagem é Eugen Bacar. Fotógrafo, deficiente visual, que  faz fotos maravilhosas, pois é possuidor de uma incrível sensibilidade. Ele diz que as pessoas não sabem mais ver, que vivemos uma cegueira generalizada. Chama muito a atenção,  quando ele diz que vê com um terceiro olho e mostra um espelhinho embaixo do casaco.

E não é mesmo um fato,  vivermos "cegos" pelas verdades que criamos? Muitos de nós cria sua verdade e não desconfia dessa verdade porque confia muito naquilo que enxerga dentro do seu quadro. Ao nos fecharmos  em nosso enquadramento e não percebermos que nem sempre aquilo que se mostra é real senão nossa criação, que o sentido das coisas pode modificar-se dependendo de vivências damos mais amplitude e conseguimos ver mais beleza e ter menos medo de experimentar novidades e belezas desconhecidas. 

Há um trecho no documentário que  Saramago declara: “nunca me esqueci da visão que tive da coroa do camarote real, no teatro em Lisboa. De longe uma maravilha. Quando olhei debaixo, cheia de sujeiras, de teia de aranha... logo aprendi: para conhecer as coisas há que dar-lhes a volta.” E ainda: “a realidade não existe, cada experiência de olhar é um limite.”.

A reflexão que assistir este documentário  possibilitou é a de que o olhar é diferente do ver. O olhar leva mais tempo, é mais demorado, não é estanque, nem superficial, ele é uma continuidade, ele é mais profundo. O olhar pode ser exercitado, pode ser ampliado, pode ser modificado.

Nas relações precisamos exercitar o olhar, passo a passo a fim de que possamos quem sabe desvelar algo além daquilo que vemos, do que se mostra superficialmente. Não basta ver o outro, enxergá-lo , temos que realmente olhá-lo, nosso olhar vai aos poucos abrindo espaço para que este outro se mostre realmente, sem medo. Mas para esse exercício, não podemos ter medo de buscar esse olhar, que vem de dentro de nós. Precisamos primeiro nos olhar, nos reconhecermos, temos que abrir nossas janelas, nossas mentes, nossas “almas” e procurar enxergar aquilo que está encoberto atrás das nossas verdades, é preciso "dar a volta".









7 de fev. de 2011

Conhecimentos e valores - Escolha e Reflexão

Nós, seres humanos, em geral,  tentamos nos adaptar ao meio e ao convívio com os outros constantemente, estamos sempre procurando formas de conhecer o mundo ao nosso redor. Nossos conhecimentos e nossos valores seriam construídos a partir das nossas vivências cotidianas. Passamos para o outro aquilo que construímos individualmente, mas será que tudo o que construímos é produto do meio que estamos inseridos e daqueles com quem convivemos, o quanto de nós há nisso?
"Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
  Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
  Porque eu sou do tamanho do que vejo
 E não do tamanho da minha altura..."      Pessoa, 1998, P.16
 Os  versos acima foram escritos em  1914. Uma época em que  a principal concepção  existente de Ciência era a Empirista.
Historicamente, existem três concepções principais de ciência: A Racionalista, a Empirista e a Construtivista.   A Concepção Empirista é hipotético-indutiva, quer dizer, supõe-se algo sobre o objeto, realiza-se observações e experimentos e chega-se à definição dos fatos, às suas leis, suas propriedades, efeitos posteriores, previsões. Esta concepção, segundo Marilena Chauí (2003, p. 221), vai da medicina grega e Aristóteles até o final do século XIX.      Tanto a concepção de ciência Empirista, quanto a Racionalista, que se estende dos gregos até o final do século XVII possuíam o mesmo pressuposto, ainda segundo a autora anteriormente citada, "Ambas (teorias) consideravam que a teoria científica era uma explicação e uma representação verdadeira da própria realidade, tal como esta é em si mesma."  Entretanto, apesar de iniciarem com os gregos e terem o mesmo pressuposto, as teorias Empirista e Racionalista não são idênticas. A Concepção Racionalista era hipotético-dedutiva, isto é, definia o objeto e suas leis e disso deduzia propriedades, efeitos posteriores, previsões. 
A concepção Construtivista, é a concepção do nosso tempo. Ela não segue o mesmo pressuposto das duas concepções citadas anteriormente, pois considera a Ciência uma: "(...) construção de modelos explicativos para a realidade e não uma representação da própria realidade. O cientista combina dois procedimentos - um vindo do racionalismo, e outro, vindo do empirismo - a eles acrescenta um terceiro, vindo da idéia de conhecimento aproximado e corrigível."(CHAUÍ, 2003, p.221)
 O Conhecimento está presente na ação do professor, porque é o objeto de sua atividade, por isso é muito importante que o professor compreenda e utilize a modalidade científica do conhecimento, desde que esta não seja a única modalidade considerada. A modalidade científica do conhecimento é que está mais presente no nosso dia-a-dia, porém, outras modalidades também estão. A afetividade e a religiosidade estão sempre muito presentes e são conhecimentos muito significativos também. Bem antes da Ciência ser utilizada, como conhecimento sistemático, metódico e deliberado separado de uma visão mitológica (mágica) de mundo, os seres humanos já existiam.   São milhões de anos, que situamos nossos primeiros ancestrais. Seriam dois milhões de anos da elaboração dos primeiros instrumentos de pedra e aproximadamente 500.000 anos do uso do fogo pelo homem. Este modelo de conhecimento, o qual  chamamos científico, no Ocidente, teria pouco mais de 2.500 anos.
  No  documentário "A Invenção da Infância", de 1996, ao ouvir o relato de uma mãe sobre a morte dos filhos, observamos um exemplo de que a "ação científica" não atinge a todos os seres humanos do mesmo modo. Não temos todos o acesso necessário ao "conhecimento científico"  com a mesma intensidade e condições de usufruto.** Portanto, conhecer e refletir sobre as desigualdades e sobre atitudes humanas discriminatórias, deve fazer também parte da formação dos educadores. Formação essa, que deve ser constante e ampla, não se resumindo a apenas uma especialidade.
  Talvez, precisaríamos entender, para mudar alguma coisa em educação,  que não há verdades absolutas, que as verdades são relativas, circunstanciais; teríamos, em princípio,  que deixar de ser professores que organizam o currículo previamente, um currículo estático.  Para transformar/melhorar a escola que há hoje: cheia de desigualdades, de diferenças e de exclusão precisaríamos aceitar a pluralidade, uma  relativa "desordem" advinda da complexidade que constitui a sociedade.
  

**A partir da frase “ser criança não é ter infância”, o documentário provoca uma reflexão sobre o que é ser criança no mundo contemporâneo. Durante o curta (25 minutos de duração aproximadamente), a autora analisa as diferenças e semelhanças na vida de crianças pobres no Nordeste e de classe média no Sul do Brasil. O documentário inicia com a fala de nordestinas, que tiveram vários  filhos, que não sobreviveram devido à carência da família. Em um destes relatos a mãe conta que teve 25 filhos e que só sobreviveram seis, segundo ela, os filhos que morreram  não eram dela e sim de “Deus”, que os deu e depois os tomou.

 

Apoio para o Professor - Uma pitada de rock e poesia para ajudar a escalada.

“I can't get no satisfaction. No satisfaction, no satisfaction, no satisfaction.I can't get no.”

Pode-se, sem dúvida, afirmar que ser um bom professor não é uma tarefa fácil, que é difícil satisfazer os anseios de todos os envolvidos no processo de ensinar/aprender/aprender/ensinar. Trabalhar com o conhecimento é difícil, visto que conhecimento não é uma coisa estática, exata. Não trabalhamos com "o conhecimento" e sim com "conhecimentos", com a pluralidade, com a diversidade, com a multiplicidade de vivências, situações. Mesmo os conhecimentos universais, os considerados como essenciais pela sociedade e que todos devemos conhecer devem ser trabalhados de forma a atender as necessidades individuais. Pois trabalhamos com indivíduos, cada um carregado de uma genética, de uma cultura, de sentimentos variados que se devem às suas vivências, suas experiências. Precisaríamos, antes de tudo, compreender a complexidade do humano.
É preciso estar atento ao que a ciência nos traz, nos informa como novidade, como "descoberta", mas temos também que nos alertar para o sentido da palavra humano. Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Por que estamos aqui?
O mesmo ser humano, que é capaz de matar milhares de pessoas de sua espécie em nome de uma causa, também é o único ser capaz de ajudar outros seres da sua espécie com quem não mantém vínculos. A ciência - as teorias evolucionistas baseadas na genética -  ainda não consegue explicar o altruísmo e o egoísmo e apontam para a importância das teorias tanto da evolução cultural quanto da co-evolução genes e cultura.
Parece que ao professor é imprescindível uma visão global, um conhecimento de todas as áreas. Não é possível, para que a escola seja eficiente, que ainda  "formem-se" na Universidade pessoas com visões fragmentadas. Atualmente o professor (aqui falo a partir da minha vivência em escola pública) além de se preocupar em ampliar seus conhecimentos, está envolvido em muitas coisas que formam a escola como um todo e que não deveriam ser atribuições suas, e geralmente sem encontrar apoio, sem encontrar com quem discutir sobre suas escolhas, seus erros e acertos em sala de aula. Sem uma supervisão eficiente e coerente do trabalho que é realizado. Ele escolhe, planeja, age e avalia sozinho, nem sempre bem, nem sempre mal, em geral mediocremente, inseguro e com conhecimento teórico superficial.
A formação continuada do professor, o apoio pedagógico  (eficiente e coerente com a filosofia e os pressupostos teóricos escolhidos pela mantenedora e pelo estabelecimento escolar) e também o psicológico deveria ser uma constante nas escolas, para o grupo de professores.
Cito para reflexão a respeito da necessidade de apoio à prática do professor, o documentário Extremo Sul, que conta a história de cinco alpinistas que em 2003 montaram um acampamento base no extremo sul da Terra do Fogo, depois de cruzarem milhares de quilômetros de estradas na Patagônia argentina e chilena.
Junto a uma equipe de filmagem o quinteto enfrentou o isolamento, o frio, a chuva e o vento. Buscavam a realização de um sonho comum, que era alcançar o cume do Monte Sarmiento, uma montanha muito pouco explorada, mas conhecida por sua beleza e dificuldade de acesso. O filme inicia com os protagonistas da aventura expondo seus sonhos, seus projetos de vida, seus desejos, suas dúvidas, anseios e medos. Muitas coisas os uniam na busca do ideal que era chegar ao cume. Porém, ao avistarem a montanha, os sentimentos que não tinham sido revelados passaram a emergir e as suas limitações frente ao monumento de gelo foram ficando mais fortes do que o desejo de chegar ao topo.    O interessante, nesta história, é o fato de parecer que os  alpinistas passam a não ter mais coragem de escalar a montanha após ouvirem um integrante da equipe de apoio dizer que eles não seriam capazes. Um deles segue desejando, mas sua reação resume-se a chorar e dormir. Todo o planejamento feito pelo grupo vai por água abaixo após ouvirem sobre os perigos de um dos integrantes da equipe que estaria lá para auxiliá-los no enfrentamento das dificuldades. Há um momento, no documentário, que dá a entender  que o maior confronto, o maior desafio, a maior superação dos alpinistas não era tanto  a natureza inóspita (quando mostra o caso de outros alpinistas de uma expedição anterior que conseguiram com muito menos recursos chegar ao topo da mesma montanha). O  obstáculo, muito maior que uma avalanche ou um paredão de gelo, estava dentro de cada um, pois eles visualizaram não só a imensidão da montanha quando chegaram lá e foram favorecidos pelo bom tempo. Eles visualizaram a realidade dos seus sentimentos, eles se sentiram incapazes. O documentário passa a não ser mais sobre a montanha e a escalada, mas sobre cada alpinista. Nesse momento,  o rosto de cada um é filmado e eles falam dos seus medos, da sua incapacidade. A fala de um parece desmotivar o outro. E desmotivados, eles desistem da aventura. Questionados, explicitam suas razões, se justificam e desmistificam a posição de heróis que se haviam atribuído no início do projeto. Convencem os outros e são convencidos por si mesmos que não podem, não tem "poder".    Às vezes, me parece que a história dos alpinistas, neste documentário, é o quadro de muitas escolas com seu grupo de professores.  Falta-lhes apoio, incentivo, falta acreditarem em si mesmos. A falta de recursos das escolas (que é imensa) pode muitas vezes ser uma desculpa, pois bem se vê em tantos lugares por aí que é possível mudar a ação e mudar para melhor com bem pouco. A falta de recursos não deveria imobilizar, mas alavancar ações que mostrassem que mesmo com pouco o professor consegue muitos bons resultados, e a partir desses resultados, buscar com o apoio de toda a sociedade, o que é de direito, exigir os recursos escassos e negligenciados pelo poder público, que para continuar inerte atribui o pouco investimento ao baixo resultado das escolas em exames e testagens realizadas para medir e classificar.
 Water - is taught by thirst./ Land - by the Oceans passed/ Transport - by throe -/ Peace - by the battles told -/ Love, by Memorial mold -/ Birds , by the Snow. **
  O documentário Extremo Sul  e este poema de Dickinson ajudam na reflexão sobre ser professor e viver com um medo, com uma angústia , uma sensação de não dar conta das dificuldades, de não conseguir vencer os desafios da profissão e de como aprender está relacionado à vivenciar situações (nem sempre aprazíveis).  O professor, todo ano, ao chegar à escola e encontrar os seus alunos é desafiado. Mesmo aquele professor que já não é novo na caminhada, sabe que os grupos  de alunos, com quem irá conviver durante o ano, são diferentes dos grupos dos anos anteriores e que precisará aprender a conviver com estes novos grupos. E cada professor tem uma história de vida, um caminho percorrido, uma dificuldade, uma facilidade. E sente medo, apreensão, angústia, ansiedade.   Pensando bem, qualquer profissional, que precisar enfrentar desafios, sentirá medo, apreensão, etc. E, os professores, empossados por esses sentimentos, precisam decidir se escalam a montanha ou se ficam parados no acampamento encarando as "câmeras" e justificando sua incapacidade (como fizeram os alpinistas). Além de estar bem preparado, é preciso ter coragem de encarar a aventura. Os heróis existem?   E os mitos? Afinal não  somos nós próprios que os criamos e também os destruímos?
   Existem pessoas, aquelas que arriscam, que enfrentam o medo, as angústias, as incertezas, o desconhecido,  na busca, muitas vezes, de um sonho, ou de uma vida melhor. Elas vencem muitos obstáculos, principalmente quando estão bem preparadas e quando são corajosas, mas elas sofrem também.
  Na escola, como no documentário, os que se aventuram precisam de  uma equipe de apoio. Não só para documentar, mas para auxiliar, para encorajar. Sozinho o alpinista não conseguirá escalar, mas com um pequeno apoio a escalada pode acontecer. Com um apoio maior poder ser mais segura e melhor sucedida.  Em Educação, também precisa ser assim. O professor precisa ter apoio, sentir-se motivado a descobrir novas e eficientes formas de trabalhar com os outros (colegas, alunos) e com o conhecimento,  de forma a conquistar seu ideal: que nada mais é do que aquele de tornar a vida (humana) melhor, mais feliz e harmoniosa. 
  Em sua formação o professor  precisa encontrar o perfume dos novos temperos, a energia e a vitalidade do Rock e a sensibilidade inusitada da poesia para ter coragem de escalar as montanhas mais altas e se aventurar por novos caminhos...aprendendo a fazer,  a refletir, a inventar e reinventar.

**“ A água se ensina pela sede;/ A terra, por oceanos navegados;/O êxtase, pela aflição;/ A paz, pelos combates narrados;/ O amor, pela cinza da memória/ E, pela neve, os pássaros.

 





29 de set. de 2010

Escolas do Rock...


Formação de Professores
Carla Inez Lima de Freitas

 O que na vida, na cognição e no ato chamamos de objeto definido só adquire determinidade na nossa relação com ele: é nossa relação que define o objeto e sua estrutura e não o contrário; só onde a relação se torna aleatória de nossa parte, meio caprichosa, e nos afastamos da nossa relação de princípio com as coisas e com o mundo, a determinidade do objeto resiste a nós como algo estranho e independente e começa a desagregar-se, e nós mesmos ficamos sujeitos ao domínio do aleatório, perdemos a nós mesmos e perdemos também a determinidade estável do mundo. (Bakhtin, 2006, p. 4)
        
  Ouve-se, frequentemente, que a educação escolar brasileira sofre uma crise profunda e grave e que a “Escola” precisa mudar para atender as demandas atuais. Ouve-se que professores graduados, em uma área específica, muitas vezes, encontram grandes dificuldades, quando,  no enfrentamento da prática, descobrem que o conhecimento que obtiveram durante sua graduação é insuficiente para atingir seu objetivo maior, que seria ajudar consistentemente todos os seus alunos a aprenderem.  Pois, parei para pensar, ao assistir, tempos atrás,  um filme intitulado  "A Escola do Rock". O protagonista é um músico "fracassado" que toma o lugar de um amigo e passa a atuar como professor  em uma escola, pois de acordo com sua filosofia "quem não sabe fazer ensina" ... Durante o desenrolar do filme, o “ falso professor”,  abandona o programa  estabelecido   e de forma secreta começa a ensinar Rock'n'roll , que parece ser o que ele sabe melhor. Como resultado, ao considerar e valorizar as capacidades de cada criança, ele obtém sucesso, pois elas, motivadas  e valorizadas conseguem ótimos resultados no que se propuseram a realizar. 
  Quando se fala em “fracasso” na educação o primeiro ponto de debate é a “formação” do professor. E pensando sobre formação, surgem questionamentos: andamos ensinando o que não sabemos? Sabemos o que temos de ensinar? Afinal, quem é o professor de hoje e quem será o professor do futuro? Afinal, o que temos que ensinar, o que eles precisam aprender? Quando paramos para pensar sobre isso? 
  Ao se falar sobre ensino/aprendizagem é muito importante adquirir consciência da diferença entre as "certezas cotidianas" e o "conhecimento científico". O que é difícil  entender, me parece,  é que, muitas vezes, estas certezas estão fixas em nossas mentes, em nossos corpos e, por isso, é quase impossível de uma hora para outra nos livrarmos delas.
  Nós,  professores,  frequentamos escolas desde muito cedo e por muito tempo, quase a maior parte de nossas vidas estamos nesse lugar (a escola). Primeiro como alunos, depois como professores, em certos momentos as duas situações ao mesmo tempo. Se fizéssemos uma retomada de nossa vida dentro da escola,  lembraríamos que, vivenciamos mudanças (mesmo que mínimas) na escola. Mudanças de concepções, de linguagens, de formas de ver o outro e a si mesmo, diferentes maneiras de ensinar e aprender, diferentes concepções, filosofias, novas tecnologias sendo incorporadas ao nosso cotidiano.  
  Depois desse exercício de  "reviver  nossa história escolar" seria bom refletirmos  e identificarmos quais dessas situações que vivenciamos/aprendemos ficaram impregnadas em nossos corpos mentes? Como nos desamarrarmos daquilo que não está funcionando mais, que um dia, talvez, em outro momento histórico, funcionou, mas que agora já não tem mais razão de ser?