Nós, seres humanos, em geral, tentamos nos adaptar ao meio e ao convívio com os outros constantemente, estamos sempre procurando formas de conhecer o mundo ao nosso redor. Nossos conhecimentos e nossos valores seriam construídos a partir das nossas vivências cotidianas. Passamos para o outro aquilo que construímos individualmente, mas será que tudo o que construímos é produto do meio que estamos inseridos e daqueles com quem convivemos, o quanto de nós há nisso?
"Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura..." Pessoa, 1998, P.16
Os versos acima foram escritos em 1914. Uma época em que a principal concepção existente de Ciência era a Empirista.
Historicamente, existem três concepções principais de ciência: A Racionalista, a Empirista e a Construtivista. A Concepção Empirista é hipotético-indutiva, quer dizer, supõe-se algo sobre o objeto, realiza-se observações e experimentos e chega-se à definição dos fatos, às suas leis, suas propriedades, efeitos posteriores, previsões. Esta concepção, segundo Marilena Chauí (2003, p. 221), vai da medicina grega e Aristóteles até o final do século XIX. Tanto a concepção de ciência Empirista, quanto a Racionalista, que se estende dos gregos até o final do século XVII possuíam o mesmo pressuposto, ainda segundo a autora anteriormente citada, "Ambas (teorias) consideravam que a teoria científica era uma explicação e uma representação verdadeira da própria realidade, tal como esta é em si mesma." Entretanto, apesar de iniciarem com os gregos e terem o mesmo pressuposto, as teorias Empirista e Racionalista não são idênticas. A Concepção Racionalista era hipotético-dedutiva, isto é, definia o objeto e suas leis e disso deduzia propriedades, efeitos posteriores, previsões.
A concepção Construtivista, é a concepção do nosso tempo. Ela não segue o mesmo pressuposto das duas concepções citadas anteriormente, pois considera a Ciência uma: "(...) construção de modelos explicativos para a realidade e não uma representação da própria realidade. O cientista combina dois procedimentos - um vindo do racionalismo, e outro, vindo do empirismo - a eles acrescenta um terceiro, vindo da idéia de conhecimento aproximado e corrigível."(CHAUÍ, 2003, p.221)
O Conhecimento está presente na ação do professor, porque é o objeto de sua atividade, por isso é muito importante que o professor compreenda e utilize a modalidade científica do conhecimento, desde que esta não seja a única modalidade considerada. A modalidade científica do conhecimento é que está mais presente no nosso dia-a-dia, porém, outras modalidades também estão. A afetividade e a religiosidade estão sempre muito presentes e são conhecimentos muito significativos também. Bem antes da Ciência ser utilizada, como conhecimento sistemático, metódico e deliberado separado de uma visão mitológica (mágica) de mundo, os seres humanos já existiam. São milhões de anos, que situamos nossos primeiros ancestrais. Seriam dois milhões de anos da elaboração dos primeiros instrumentos de pedra e aproximadamente 500.000 anos do uso do fogo pelo homem. Este modelo de conhecimento, o qual chamamos científico, no Ocidente, teria pouco mais de 2.500 anos.
No documentário "A Invenção da Infância", de 1996, ao ouvir o relato de uma mãe sobre a morte dos filhos, observamos um exemplo de que a "ação científica" não atinge a todos os seres humanos do mesmo modo. Não temos todos o acesso necessário ao "conhecimento científico" com a mesma intensidade e condições de usufruto.** Portanto, conhecer e refletir sobre as desigualdades e sobre atitudes humanas discriminatórias, deve fazer também parte da formação dos educadores. Formação essa, que deve ser constante e ampla, não se resumindo a apenas uma especialidade.
Talvez, precisaríamos entender, para mudar alguma coisa em educação, que não há verdades absolutas, que as verdades são relativas, circunstanciais; teríamos, em princípio, que deixar de ser professores que organizam o currículo previamente, um currículo estático. Para transformar/melhorar a escola que há hoje: cheia de desigualdades, de diferenças e de exclusão precisaríamos aceitar a pluralidade, uma relativa "desordem" advinda da complexidade que constitui a sociedade.
**A partir da frase “ser criança não é ter infância”, o documentário provoca uma reflexão sobre o que é ser criança no mundo contemporâneo. Durante o curta (25 minutos de duração aproximadamente), a autora analisa as diferenças e semelhanças na vida de crianças pobres no Nordeste e de classe média no Sul do Brasil. O documentário inicia com a fala de nordestinas, que tiveram vários filhos, que não sobreviveram devido à carência da família. Em um destes relatos a mãe conta que teve 25 filhos e que só sobreviveram seis, segundo ela, os filhos que morreram não eram dela e sim de “Deus”, que os deu e depois os tomou.
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