7 de fev. de 2011

Apoio para o Professor - Uma pitada de rock e poesia para ajudar a escalada.

“I can't get no satisfaction. No satisfaction, no satisfaction, no satisfaction.I can't get no.”

Pode-se, sem dúvida, afirmar que ser um bom professor não é uma tarefa fácil, que é difícil satisfazer os anseios de todos os envolvidos no processo de ensinar/aprender/aprender/ensinar. Trabalhar com o conhecimento é difícil, visto que conhecimento não é uma coisa estática, exata. Não trabalhamos com "o conhecimento" e sim com "conhecimentos", com a pluralidade, com a diversidade, com a multiplicidade de vivências, situações. Mesmo os conhecimentos universais, os considerados como essenciais pela sociedade e que todos devemos conhecer devem ser trabalhados de forma a atender as necessidades individuais. Pois trabalhamos com indivíduos, cada um carregado de uma genética, de uma cultura, de sentimentos variados que se devem às suas vivências, suas experiências. Precisaríamos, antes de tudo, compreender a complexidade do humano.
É preciso estar atento ao que a ciência nos traz, nos informa como novidade, como "descoberta", mas temos também que nos alertar para o sentido da palavra humano. Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Por que estamos aqui?
O mesmo ser humano, que é capaz de matar milhares de pessoas de sua espécie em nome de uma causa, também é o único ser capaz de ajudar outros seres da sua espécie com quem não mantém vínculos. A ciência - as teorias evolucionistas baseadas na genética -  ainda não consegue explicar o altruísmo e o egoísmo e apontam para a importância das teorias tanto da evolução cultural quanto da co-evolução genes e cultura.
Parece que ao professor é imprescindível uma visão global, um conhecimento de todas as áreas. Não é possível, para que a escola seja eficiente, que ainda  "formem-se" na Universidade pessoas com visões fragmentadas. Atualmente o professor (aqui falo a partir da minha vivência em escola pública) além de se preocupar em ampliar seus conhecimentos, está envolvido em muitas coisas que formam a escola como um todo e que não deveriam ser atribuições suas, e geralmente sem encontrar apoio, sem encontrar com quem discutir sobre suas escolhas, seus erros e acertos em sala de aula. Sem uma supervisão eficiente e coerente do trabalho que é realizado. Ele escolhe, planeja, age e avalia sozinho, nem sempre bem, nem sempre mal, em geral mediocremente, inseguro e com conhecimento teórico superficial.
A formação continuada do professor, o apoio pedagógico  (eficiente e coerente com a filosofia e os pressupostos teóricos escolhidos pela mantenedora e pelo estabelecimento escolar) e também o psicológico deveria ser uma constante nas escolas, para o grupo de professores.
Cito para reflexão a respeito da necessidade de apoio à prática do professor, o documentário Extremo Sul, que conta a história de cinco alpinistas que em 2003 montaram um acampamento base no extremo sul da Terra do Fogo, depois de cruzarem milhares de quilômetros de estradas na Patagônia argentina e chilena.
Junto a uma equipe de filmagem o quinteto enfrentou o isolamento, o frio, a chuva e o vento. Buscavam a realização de um sonho comum, que era alcançar o cume do Monte Sarmiento, uma montanha muito pouco explorada, mas conhecida por sua beleza e dificuldade de acesso. O filme inicia com os protagonistas da aventura expondo seus sonhos, seus projetos de vida, seus desejos, suas dúvidas, anseios e medos. Muitas coisas os uniam na busca do ideal que era chegar ao cume. Porém, ao avistarem a montanha, os sentimentos que não tinham sido revelados passaram a emergir e as suas limitações frente ao monumento de gelo foram ficando mais fortes do que o desejo de chegar ao topo.    O interessante, nesta história, é o fato de parecer que os  alpinistas passam a não ter mais coragem de escalar a montanha após ouvirem um integrante da equipe de apoio dizer que eles não seriam capazes. Um deles segue desejando, mas sua reação resume-se a chorar e dormir. Todo o planejamento feito pelo grupo vai por água abaixo após ouvirem sobre os perigos de um dos integrantes da equipe que estaria lá para auxiliá-los no enfrentamento das dificuldades. Há um momento, no documentário, que dá a entender  que o maior confronto, o maior desafio, a maior superação dos alpinistas não era tanto  a natureza inóspita (quando mostra o caso de outros alpinistas de uma expedição anterior que conseguiram com muito menos recursos chegar ao topo da mesma montanha). O  obstáculo, muito maior que uma avalanche ou um paredão de gelo, estava dentro de cada um, pois eles visualizaram não só a imensidão da montanha quando chegaram lá e foram favorecidos pelo bom tempo. Eles visualizaram a realidade dos seus sentimentos, eles se sentiram incapazes. O documentário passa a não ser mais sobre a montanha e a escalada, mas sobre cada alpinista. Nesse momento,  o rosto de cada um é filmado e eles falam dos seus medos, da sua incapacidade. A fala de um parece desmotivar o outro. E desmotivados, eles desistem da aventura. Questionados, explicitam suas razões, se justificam e desmistificam a posição de heróis que se haviam atribuído no início do projeto. Convencem os outros e são convencidos por si mesmos que não podem, não tem "poder".    Às vezes, me parece que a história dos alpinistas, neste documentário, é o quadro de muitas escolas com seu grupo de professores.  Falta-lhes apoio, incentivo, falta acreditarem em si mesmos. A falta de recursos das escolas (que é imensa) pode muitas vezes ser uma desculpa, pois bem se vê em tantos lugares por aí que é possível mudar a ação e mudar para melhor com bem pouco. A falta de recursos não deveria imobilizar, mas alavancar ações que mostrassem que mesmo com pouco o professor consegue muitos bons resultados, e a partir desses resultados, buscar com o apoio de toda a sociedade, o que é de direito, exigir os recursos escassos e negligenciados pelo poder público, que para continuar inerte atribui o pouco investimento ao baixo resultado das escolas em exames e testagens realizadas para medir e classificar.
 Water - is taught by thirst./ Land - by the Oceans passed/ Transport - by throe -/ Peace - by the battles told -/ Love, by Memorial mold -/ Birds , by the Snow. **
  O documentário Extremo Sul  e este poema de Dickinson ajudam na reflexão sobre ser professor e viver com um medo, com uma angústia , uma sensação de não dar conta das dificuldades, de não conseguir vencer os desafios da profissão e de como aprender está relacionado à vivenciar situações (nem sempre aprazíveis).  O professor, todo ano, ao chegar à escola e encontrar os seus alunos é desafiado. Mesmo aquele professor que já não é novo na caminhada, sabe que os grupos  de alunos, com quem irá conviver durante o ano, são diferentes dos grupos dos anos anteriores e que precisará aprender a conviver com estes novos grupos. E cada professor tem uma história de vida, um caminho percorrido, uma dificuldade, uma facilidade. E sente medo, apreensão, angústia, ansiedade.   Pensando bem, qualquer profissional, que precisar enfrentar desafios, sentirá medo, apreensão, etc. E, os professores, empossados por esses sentimentos, precisam decidir se escalam a montanha ou se ficam parados no acampamento encarando as "câmeras" e justificando sua incapacidade (como fizeram os alpinistas). Além de estar bem preparado, é preciso ter coragem de encarar a aventura. Os heróis existem?   E os mitos? Afinal não  somos nós próprios que os criamos e também os destruímos?
   Existem pessoas, aquelas que arriscam, que enfrentam o medo, as angústias, as incertezas, o desconhecido,  na busca, muitas vezes, de um sonho, ou de uma vida melhor. Elas vencem muitos obstáculos, principalmente quando estão bem preparadas e quando são corajosas, mas elas sofrem também.
  Na escola, como no documentário, os que se aventuram precisam de  uma equipe de apoio. Não só para documentar, mas para auxiliar, para encorajar. Sozinho o alpinista não conseguirá escalar, mas com um pequeno apoio a escalada pode acontecer. Com um apoio maior poder ser mais segura e melhor sucedida.  Em Educação, também precisa ser assim. O professor precisa ter apoio, sentir-se motivado a descobrir novas e eficientes formas de trabalhar com os outros (colegas, alunos) e com o conhecimento,  de forma a conquistar seu ideal: que nada mais é do que aquele de tornar a vida (humana) melhor, mais feliz e harmoniosa. 
  Em sua formação o professor  precisa encontrar o perfume dos novos temperos, a energia e a vitalidade do Rock e a sensibilidade inusitada da poesia para ter coragem de escalar as montanhas mais altas e se aventurar por novos caminhos...aprendendo a fazer,  a refletir, a inventar e reinventar.

**“ A água se ensina pela sede;/ A terra, por oceanos navegados;/O êxtase, pela aflição;/ A paz, pelos combates narrados;/ O amor, pela cinza da memória/ E, pela neve, os pássaros.

 





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