30 de ago. de 2011

Janela da Alma

Em nossa sociedade, costumamos viver a partir de uma realidade que criamos, principalmente, a partir daquilo que vemos. O documentário “Janelas da Alma”  nos mostra pessoas famosas e muito especiais que são capazes de administrar sua “deficiência” com tamanha força que ela passa a ser até essencial para o desenvolvimento daquilo a que elas se propõem. Ao contrário do que nós, possuidores de uma visão perfeita vivenciamos, eles criam uma outra realidade, não só  a partir da visão, mas através de outros sentidos que muitas vezes não somos capazes de perceber.

Algumas declarações do filme emocionam. Destaco as que mais me tocaram que são:
1)  a da menina que disse não enxergar sem os óculos, porém, ela não o usa por vergonha;
2)  a da produtora de cinema que contou sobre uma cirurgia para corrigir seu estrabismo, mas que ninguém notou
3) a de Win Wenders que disse usar os óculos para ver o mundo enquadrado, pois a amplidão não lhe faz bem. Ele prefere a moldura na visão: “...without glasses I see too much...” (sem óculos eu vejo demais)  foi a expressão que ele usou.

Considero  incríveis esses três depoimentos e  será que eles não nos ajudam muito a  refletir sobre nosso cotidiano? O quanto a vergonha não nos impossibilita e aprisiona, o quanto nos preocupamos com os outros que nem nos notam, pois estão mais preocupados consigo mesmos, o quanto vemos o mundo dentro de uma moldura e não nos sentimos desconfortáveis com a amplidão.

Outro personagem é Eugen Bacar. Fotógrafo, deficiente visual, que  faz fotos maravilhosas, pois é possuidor de uma incrível sensibilidade. Ele diz que as pessoas não sabem mais ver, que vivemos uma cegueira generalizada. Chama muito a atenção,  quando ele diz que vê com um terceiro olho e mostra um espelhinho embaixo do casaco.

E não é mesmo um fato,  vivermos "cegos" pelas verdades que criamos? Muitos de nós cria sua verdade e não desconfia dessa verdade porque confia muito naquilo que enxerga dentro do seu quadro. Ao nos fecharmos  em nosso enquadramento e não percebermos que nem sempre aquilo que se mostra é real senão nossa criação, que o sentido das coisas pode modificar-se dependendo de vivências damos mais amplitude e conseguimos ver mais beleza e ter menos medo de experimentar novidades e belezas desconhecidas. 

Há um trecho no documentário que  Saramago declara: “nunca me esqueci da visão que tive da coroa do camarote real, no teatro em Lisboa. De longe uma maravilha. Quando olhei debaixo, cheia de sujeiras, de teia de aranha... logo aprendi: para conhecer as coisas há que dar-lhes a volta.” E ainda: “a realidade não existe, cada experiência de olhar é um limite.”.

A reflexão que assistir este documentário  possibilitou é a de que o olhar é diferente do ver. O olhar leva mais tempo, é mais demorado, não é estanque, nem superficial, ele é uma continuidade, ele é mais profundo. O olhar pode ser exercitado, pode ser ampliado, pode ser modificado.

Nas relações precisamos exercitar o olhar, passo a passo a fim de que possamos quem sabe desvelar algo além daquilo que vemos, do que se mostra superficialmente. Não basta ver o outro, enxergá-lo , temos que realmente olhá-lo, nosso olhar vai aos poucos abrindo espaço para que este outro se mostre realmente, sem medo. Mas para esse exercício, não podemos ter medo de buscar esse olhar, que vem de dentro de nós. Precisamos primeiro nos olhar, nos reconhecermos, temos que abrir nossas janelas, nossas mentes, nossas “almas” e procurar enxergar aquilo que está encoberto atrás das nossas verdades, é preciso "dar a volta".









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